sábado, 22 de janeiro de 2011

Interpretar um texto no tempo de Facebook

Quem ainda ficou surpreendido com os resultados dos exames intermédios dos alunos portugueses, provavelmente não se relaciona com professores ou não tem filhos a frequentar o terceiro ciclo do ensino básico. Os outros, receberam os resultados com normalidade. Alunos que não sabem estruturar um texto, ler e raciocinar é a realidade das nossas escolas.

No meio da desgraça estudantil, uma coisa não se percebe. Como é que estes alunos, semi-analfabetos, transitam de ano? Chegar ao 10º ano do ramo de humanidades e deparar com jovens incapazes de intrepretar um texto, ou de dar uma resposta correcta, do ponto de vista gramatical e da sintaxe, é deveras preocupante.

E enganem-se os que pensam e actuam como se o drama de desconhecer a Língua materna fosse exclusivo dos chamados alunos de Letras. Os de Ciências, esses que consideram inútil o português na sua formação, estão redondamente equivocados. Como o relatório dos últimos exames intermédios, publicados pelo Gabinete de Avaliação Educacional do Ministério da Educação, deixa claro: os maus resultados a Matemática e a Biologia, decorrem, não em exclusivo, mas também, do facto de os meninos e meninas que sonham ser cientistas, não conseguirem perceber um enunciado. Nos casos em que o conseguem entender as perguntas, são incapazes de redigir uma resposta bem estruturada - clara e perceptível, portanto.

Não se iludam, portanto, os que vêem nos resultados do PISA 2009 a salvação do nosso sistema de ensino. Houve progressos inegáveis. Os esforços de Maria de Lurdes Rodrigues não foram em vão. Há, porém, ainda um longo caminho a percorrer. O PISA diz-nos somente que não estamos tão mal como antes. Estamos ainda mal, como agora se viu.

Espanta a ineficácia de tantas aulas semanais de presença na escola. Para quê? Não consegue a escola cativar os mais novos? Parece que não. Numa sociedade da instantaneidade, dos SMS, Youtube e Facebook, como pode um modelo com aulas de 90 minutos prender a atenção de mentes cada vez mais preguiçosas e voláteis? Esse é o grande desafio.

Maria de Lurdes Rodrigues mostrou seguir o bom caminho. Inverter ou parar a marcha, acomodando-se ao facilitismo, pode ser perigoso.
Paula Ferreira
JN 2011-01-05

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