quarta-feira, 16 de abril de 2014

O ideal cristão

“O ideal cristão não foi experimentado e, por isso, seguido; foi considerado difícil  e posto de lado, sem experimentar”

G.K. Chesterton: 'What's Wrong With the World.'

Porque não vou à COPA do Mundo Brasil 2014

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Filme: Nunca Desistas



Na cidade de Pittsburgh, estado da Pensilvânia, EUA, Jamie é uma mãe solteira a braços com a ineficiência do acompanhamento pedagógico que a sua filha, disléxica, precisaria para garantir o sucesso escolar. Apesar das tentativas, a sensibilização que tenta junto da direção da escola, e em particular da principal professora da filha, não surtem qualquer efeito.
Desesperada, conhece Nona, uma professora que vive igualmente sozinha com um filho problemático e que passa por um período particularmente difícil após a separação do marido. Outrora professora combativa, empenhada e carismática para os seus alunos, Nona parece ter sucumbido aos entraves de um sistema educativo demasiado distante da realidade específica da sua escola, limitando-se a fazer o essencial para permitir aos alunos completarem a escolaridade obrigatória.
As preocupações e afinidades entre ambas aproximam-nas e uma lei vigente no sistema, segundo a qual é permitido aos pais assumirem maior controlo da escola, desperta em Jamie o ímpeto de fazer desta uma instituição melhor para a sua filha e os restantes alunos. O espírito afoito de Jamie faz despertar em Nona o sentido de dignidade profissional e pessoal, e sobretudo a esperança que há muito perdera.
Juntas, encetam uma luta pela qualidade educativa que as levará a travar várias batalhas junto do corpo docente, da direção e até mesmo de outros pais. Mas não desistem.
"Nunca Desistas" é a terceira longa metragem de Daniel Barnz, e a terceira vez, depois "No País das Maravilhas" e "Beastly – O Feitiço do Amor", que o realizador norte-americano exprime a sua preocupação com a questão da inclusão/exclusão numa sociedade que teima em promover padrões de normalidade próximos de uma perfeição superficial, utópica e desumanizadora.
Aqui, numa história de luta por um sistema educativo mais justo que conta com mais um notável desempenho de Viola Davis ("As Serviçais" e "Dúvida"), Barnz foca com razoável interesse um caso que, embora baseado numa realidade circunscrita a um estado norte-americano (uma lei que permite aos encarregados de educação participação ativa e efetiva na gestão da escola), desperta interesse além fronteiras.
É o caso de Portugal, onde a resposta à inclusão de crianças com dificuldades de aprendizagem, abrangendo um vastíssimo espectro de obstáculos ao sucesso escolar e pessoal dos alunos, está longe de encontrar resposta na escolaridade obrigatória.
Não obstante o registo algo caricatural do corpo docente e algum populismo nas asserções do argumento, "Nunca Desistas"n tem o mérito de nos pôr a pensar sobre a escola e a família como protagonistas, por excelência, da esperança numa sociedade mais humana.
Margarida Ataíde
Grupo de Cinema/SNPC

domingo, 21 de julho de 2013

A razia nos exames

Mais depressa desconfio que os exames não aferem o que deviam aferir dos conhecimentos dos nossos alunos


O meu filho fartou-se de estudar para os exames. Estudou tanto que tive mesmo de o proibir de estudar mais. Desde a Páscoa que não pensava noutra coisa. Mais exames houvesse para ele poder treinar, mais ele os tinha feito. O objectivo era o 5. Nem menos um ponto. O nível de stress foi-se avolumando até ao dia do exame. Não tivesse o garoto 10 anos e tinha-lhe enfiado um ansiolítico pela boca a baixo. Em vez disso dei-lhe um copo de leite morno e mandei-o para cama mais cedo porque sabia que iria demorar horas para conseguir adormecer. A criança apresentou-se a exame com boas notas: quase 5 como nota interna. Faltou-lhe um bocadinho de nada para o cinco e o exame era a esperança.
O ano passado o meu filho mais velho também fez estes exames. Era a primeira vez que o sexto ano fazia exames a sério, a contar para a nota final. A criança estava descontraída demais para o desafio que se aproximava, ao contrário da escola, dos colegas, dos professores, do país em geral e dos pais em particular que atingiram elevados níveis de ansiedade. O objectivo dele era apenas não ter negativa, o que viesse a partir do 3 (incluindo) era muito bem-vindo. Foi com a nota interna de 3 que ele se apresentou ao exame. Quinze dias antes do dia fatídico fechei-o em casa e obriguei-o a estudar afincadamente: qualquer ida à casa de banho tinha de ser previamente combinada, a hora das refeições estava cronometrada e o horário de estudo era qualquer coisa do tipo nazi. Foram quinze dias em que a criança ficou agarrada à secretária a fazer as fichas, os testes e os trabalhos que não tinha feito durante todo o ano com a dedicação devida.
Na véspera do exame dormiu como um anjinho e previsivelmente descontraído. Não me lembro se tive de lhe dar leite morno ou não. Acho que não.
Os exames correram todos muito bem. Qualquer um dos meus filhos saiu do exame confiante, aliviado e optimista. O primeiro, o que estuda como se não houvesse amanhã, teve 3 no exame de Português e 4 no exame de Matemática. Nem queria acreditar. Quando recebeu a notícia, ficou mudo. Não temos falado sobre o assunto desde então. Conforta-o manter as notas internas que são boas. Mas ainda assim não falamos sobre o assunto.
O mais velho, o que fez os exames o ano passado, teve 5 a matemática e 3 a português. Quando recebeu a notícia achava que eu estava a gozar com ele. Afinal, dizia ele, não era preciso tanto stress. O exame não é nada de especial: para quê tanta histeria? Está claro que este ano voltou a ser um aluno descontraído. Sem stress. O 3 chega e sobra.
Querem estas pequenas histórias familiares dizer o quê? Querem dizer que os exames dizem alguma coisa sobre o desempenho dos alunos, mas apenas alguma coisa. Pois não é essa a principal função destes exames. A principal função, a principal leitura que se deve ter dos resultados dos exames, é sobre o sistema. Se as notas dos exames são bem mais baixas do que as notas internas quer isso dizer que alguma coisa está desajustada: as notas internas ou os exames - a correcção, as perguntas, a forma como são redigidos, o que for. Quando se verifica esse desajustamento quer isso dizer que alguma coisa não está a funcionar como devia estar. Os exames servem fundamentalmente para aferir o sistema, não apenas o conhecimento dos alunos. Perante as médias baixas nos exames a pergunta que se deve fazer é: onde é que estamos a falhar, onde temos de melhorar?
Não acredito que os professores e os alunos do país inteiro estejam todos a dormir: mais depressa desconfio que os exames não aferem o que deviam aferir dos conhecimentos dos nossos alunos. O meu filho mais velho que o diga.

Por Inês Teotónio Pereira , publicado em 20 Jul 2013

quinta-feira, 18 de julho de 2013

O que o cristianismo trouxe foi que Deus não é poder. É o não-poder.

O homem é uma realidade religiosa. O problema é que essa referência possa aparecer como objeto, como se Deus fosse manipulador ou manipulável. Uma espécie de ser mágico de que todas as coisas dependem. Outra coisa é ser algo de que o homem se serve para dominar. A maioria das religiões são máscaras dessa vontade de poder, de dominar os outros, de os subordinar, de os humilhar. Aquilo que é o seu impulso mais puro, libertador, transforma-se no seu contrário. O que o cristianismo trouxe foi que Deus não é poder. É o não-poder. Mas não foi assim que a coisa foi traduzida.
Eduardo Lourenço, Expresso, 23.12.2011

domingo, 23 de junho de 2013

Pensamento

Há homens que são como as velas; sacrificam-se queimando-se para dar luz aos outros
Padre António Vieira
(1608-1697)

domingo, 12 de maio de 2013

Credo




MISSA BREVIS de JOÃO GIL por CANTATE | Credo

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Pensamentos

Não existe à face da terra tal coisa como um assunto desinteressante; a única coisa que pode existir é uma pessoa desinteressada.
G. K. Chesterton
G. K. Chesterton

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Espalhar mensagens de esperança


Um jovem norte-americano está a fazer sucesso nas ruas de Washington e também na Internet. Decidiu sair de casa para espalhar mensagens de otimistmo.



Ver reportagem aqui.

sábado, 22 de dezembro de 2012

A mulher mais importante de Portugal?


Uma vez, numa entrevista na rádio, um jornalista atirou-me: "qual é a mulher mais importante de Portugal?" E eu, naquela perplexidade de quando somos apanhados de surpresa: "Penso que é Nossa Senhora, Maria, a mãe de Jesus."
À distância e mais reflectidamente, julgo que respondi bem, pois é mesmo isso: Maria, a mãe de Jesus, Nossa Senhora, é, muito provavelmente, a mulher mais importante de Portugal e, possivelmente, até a mais influente. Pergunto a mim próprio o que seria a Igreja em Portugal sem Fátima e mesmo o que seria o país sem a Nossa Senhora. Frei Bento Domingues foi quem melhor definiu Fátima: "o cais de todas as lágrimas dos portugueses."
Assim, lá está Fátima e milhões de peregrinos, as romarias em todas as cidades, vilas e aldeias, uma devoção enraizada, mesmo para lá da prática religiosa oficial. Talvez porque a Igreja é profundamente masculina - Deus é Pai, Filho e Espírito Santo; a hierarquia é masculina: papa, bispos, padres, diáconos - e porque os portugueses interiorizaram uma imagem tradicional severa do pai, Maria aparece como almofada e afago, sobretudo em tempos dramáticos de crise, de guerra, de becos sem saída. É a Mãe.
Tem mesmo direito a dois dias santos de guarda, com feriado nacional. Um deles celebra-se hoje: a Imaculada Conceição. Ninguém sabe ao certo o que é que a maioria dos portugueses, mesmo católicos praticantes, entende por isso, isto é, o que se celebra na Imaculada Conceição Alguns pensarão na virgindade de Maria. Mas, de facto, o que se celebra tem a ver com a doutrina do pecado original, segundo a qual todos os seres humanos nascem em pecado, por causa do pecado de Adão e Eva. Maria, porém, constituiria uma excepção, pois foi concebida sem pecado.
Ora, é preciso confessar que precisamente aqui se concentra um nó de confusões. O Evangelho desconhece essa doutrina, que provém fundamentalmente de Santo Agostinho: em Adão, todos pecaram. Mas como sustentá-la, no quadro da evolução, quando ninguém sabe quem foram os primeiros humanos, já que a tomada de consciência foi lenta e progressiva?
E quem acredita sinceramente que os seres humanos são gerados em pecado? Uma vez, uma senhora, numa conferência, atirou-me que sempre era verdade que sou herege, pois nego o pecado original. Perguntei-lhe, porque é mãe de duas filhas, se acreditava sinceramente que elas tinham sido geradas em pecado e se ela tinha andado ao todo 18 meses com o pecado dentro dela. E ela, fulminante: "Nem pensar!" Conclusão: quando a fé não é reflectida como razoável, assistimos à dissonância entre o que se diz crer e o que realmente se crê. Afinal, o que está no Génesis é, decisivamente, em linguagem simbólica, outra coisa: o significado da passagem da animalidade à humanidade: como seres humanos, temos consciência de sermos únicos e mortais - cada um é ele/ela e sabe de si como único e mortal.
Maria não é importante por ser mãe de Jesus, mas, como diz o Evangelho, por tê-lo acompanhado, mesmo quando não compreendia. Procurou entender e seguiu-o até à cruz. E tornou-se sua discípula, convertendo-se ao Deus que Jesus anunciou: o Deus-amor, que não nos abandona, nem mesmo na morte, que é próximo de todos, que quer a libertação de todos, a começar pelos mais fracos, humilhados e ofendidos - entre estes estão as mulheres
Como escreveu o biblista Xabier Pikaza, numa longa e densa investigação sobre o Evangelho, "Jesus não quis algo de especial para as mulheres. Quis, para elas, o mesmo que para os homens. Não procurou um lugar especial para elas, mas o mesmo lugar de todos, isto é, o dos 'filhos de Deus'". Depois, veio a traição: "Ao transformar-se em instituição de poder religioso e social, deixando de ser um movimento messiânico de libertação, a Igreja teve de aceitar as estruturas normais de poder, que tinha estado (e estava) nas mãos de homens. Logicamente, os homens justificaram depois essa situação (domínio patriarcal) com pseudo-argumentos religiosos, que vão contra o espírito de Jesus."

por ANSELMO BORGES, DN 

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Latim


EXCERTO

O estudo do latim está em alta nas escolas da Alemanha.
O idioma de Ovídio é a terceira língua estrangeira mais
estudada no país, atrás apenas do inglês e do francês. 
Cerca de 800 mil jovens alemães aprendem latim.
Na escola e na universidade
Nos últimos sete anos, o número de estudantes de latim
nas universidades alemãs cresceu. "O boom verificado
nas escolas se refletiu nas universidades"
, observa Claudia Schindler,
diretora do Instituto de Filologia Grega e Latina da Universidade
de Hamburgo. "As universidades, que haviam reduzido
drasticamente a oferta de latim nas últimas décadas,
foram de repente confrontadas com uma grande massa de estudantes."
Seja movidos por interesses futuros, seja pela paixão pelo idioma,
uma coisa os estudantes de latim têm em comum: eles optam
pela língua por livre e espontânea vontade. 


Para quem ainda está na escola, as coisas não funcionam
da mesma maneira. "Minha mãe queria que eu aprendesse
latim", diz Ruben, que estuda no Johanneum.
Os colegas exibem um sorriso de aprovação.
Ruben conta que preferia estudar italiano. Carla também
admite que prefere inglês a latim. Outro colega, Markus,
concorda que o que eles aprendem na classe será
de pouco uso no futuro, mas diz ver vantagens em aprender
o antigo idioma. "Latim é uma língua muito lógica e ajuda a pensar com clareza"
.
Para Claudia Schindler, o latim é uma parte da cultura europeia
e "nos leva de volta às nossas raízes"
Autora: Janine Albrecht (mas)
Revisão: Alexandre Schossler

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Milagre


"Há duas maneiras de se ver a vida: Uma é pensar que não existem milagres e a outra é acreditar que tudo é um milagre."
Albert Einstein  (1879–1955)

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Lucetta Scaraffia


"Muitas pessoas no clero temem a participação das mulheres"


Lucetta Scaraffia tem verdadeira veneração por Bento XVI e se define como "feminista". Sua batalha? Que os homens na Igreja cedam parte do seu poder para as mulheres, que trouxeram "tantas riquezas" ao longo desses 2.000 anos de cristianismo. Esta mulher vivaz de 64 anos, olhos cinzentos profundos, eminente historiadora, é uma lutadora que se gaba de ter o apoio de Joseph Ratzinger.
Colunista do L’Osservatore Romano, o jornal do Vaticano, e colaboradora em vários jornais italianos, ela expressa o que a choca na Igreja – a ambição, a corrupção do sexo e do dinheiro. Dedicada de corpo e alma à instituição, ela sabe que fez inimigos ali.
Com o apoio do Papa – “foi ele, disse ela, que decidiu que deveria haver mulheres no L’Osservatore Romano” –, ela lançou no mês passado o Inserto, um suplemento feminino mensal do jornal da Santa Sé. É a primeira vez na história da Igreja que isso acontece, o que seria inimaginável há apenas uma década.
Em seu apartamento repleto de livros, no bairro Parioli, esta esposa de um jornalista italiano conta com humor como alguns homens no Vaticano reagem ao seu suplemento: "Alguns dizem: ‘eu não o li’. Eles não vão me dizer: ‘Não está bem’. Eles preferem jogar um: ‘isso não me interessa’. A indiferença é terrível".
"Há misoginia na Igreja, é um mundo fechado, que se debate com o problema do poder. Muitas pessoas no clero temem que se as mulheres tiverem maior espaço, haverá menos lugares para eles", diz ela.

Celibato
Este sistema tem de evoluir. "Todas as mulheres da Igreja estão insatisfeitas!", diz ela com uma risada. Apenas duas mulheres ocupam postos de responsabilidade (números três) nos ministérios do Vaticano e nenhuma se encontra em cargos mais elevados.
Segundo ela, a busca de uma carreira "também pode explicar o Vatileaks, o escândalo que ocorreu com o vazamento de documentos confidenciais. “Se houvesse mulheres no poder na Igreja, nada sairia da Secretaria de Estado. As mulheres são mais livres porque elas não têm a perspectiva do poder”, lança em tom de brincadeira.
De acordo com Lucetta Scaraffia, “a pedofilia foi um escândalo quase exclusivamente masculino. Em geral, as mulheres mantêm o controle. Se houvesse mulheres em posições de poder, elas não teriam permitido essas coisas!”
A historiadora frequentemente tomou posição para que as mulheres ensinem nos seminários masculinos, de modo que os seminaristas aprendam a realidade nas leituras profanas e que os formadores lhes proporcionem “verdadeiros antídotos”, "respostas culturais", que lhes permitam viver bem celibato.
"As mulheres eram consideradas um perigoso sexual! Mas, vemos que esse ‘perigo’ são também os homens e as crianças...”, suspira.

"A vergonha é necessária"
Seu "feminismo" é diferente do de outras feministas laicas: ela é contra o aborto, defende o celibato dos sacerdotes e se opõe à ordenação de mulheres dizendo que elas têm outra vocação que não o sacerdócio.
A jornalista afirma que Bento XVI é "muito solitário e que tem um pontificado muito difícil, porque todos os problemas que estavam ocultos, de repente explodiram... Problemas muito enraizados na Igreja nos últimos 30 a 50 anos”.
"Ele tem a coragem de ver as coisas como são. Ele dá vazão aos escândalos. Eles sempre estavam escondidos. No caso do Vatileaks também, ele é firme, ele deixa as coisas saírem". "Muitas pessoas pensam que é melhor esconder tudo. Ele disse que a Igreja não está protegida pelo silêncio. Ele pensa que a vergonha é necessária para a purificação."
Para a historiadora, "as mulheres tiveram um lugar muito importante no cristianismo, desde as suas origens." "É a primeira religião em que houve paridade espiritual. Houve, na sequência, mulheres santas e isso é revolucionário. As mulheres puderam não viver o seu destino biológico, mas viver para Deus."
"Esta é a primeira religião que disse que a mulher têm os mesmos direitos que os homens. A mulher foi capaz de pedir fidelidade ao seu marido. Nos primeiros séculos, as mulheres representavam a maioria dos novos cristãos convertidos", destaca Lucetta Scaraffia.
A reportagem é de Jean-Louis de la Vaissiere e é da AFP, 08-07-2012, reproduzido pelo IHU-Unisinos

sábado, 16 de junho de 2012

Direito Humanos: Proteger Asma Jahangir


"Não posso ficar em silêncio. Podem me matar amanhã"
Asma Jahangir: quando os extremistas temem os direitos humanos
*Valentina Colombo
ROMA, sexta-feira, 15 de junho de 2012(ZENIT.org) - "Eu não posso ficar em silêncio. Eles poderiam me matar amanhã [...] Um assassinato assim não é projetado nos níveis baixos, mas nos níveis mais altos do poder".
Quem fala é a paquistanesa Asma Jahangir, a primeira mulher a dirigir a Associação de Advogados da Corte Suprema do Paquistão. Ela já se mostrou muitas vezes contrária à ordem hudud, que é o direito penal islâmico, e contra a lei da blasfêmia.
Jahangir é uma das mulheres mais corajosas e diretas do mundo islâmico. Educada em escolas católicas, é conhecida por defender os direitos das minorias. Este compromisso lhe rendeu infindáveis ameaças de morte de extremistas islâmicos, que a consideram apóstata.
De 2004 a 2010, foi relatora especial da ONU sobre questões de liberdade religiosa, é uma das fundadoras da Comissão de Direitos Humanos do Paquistão e sempre combateu a discriminação e a violência contra as mulheres.
As posições de Jahangir são claras e não dão espaço para dúvidas. Em março de 2010, durante um encontro sobre mulheres e religião nas Nações Unidas, em Genebra, ela afirmou que "quando se trata de direitos das mulheres, não podemos usar ‘se’ e ‘mas’, em nome de religião nenhuma, porque estamos falando de direitos humanos universais".
Não é uma afirmação banal para uma paquistanesa. É um desafio ao governo que durante meio século se manteve ao lado do radicalismo islâmico. Desde 1977, o Paquistão tem assistido a um processo de islamização que redundou em uma legislação discriminatória contra as mulheres.
A chamada ordem hudud, que é o sistema penal islâmico, assim como a lei da prova judicial, segundo a qual o testemunho de uma mulher vale a metade do testemunho de um homem, são uma pequena mostra dessa discriminação. E em caso de violência sexual, se não houver testemunhas, a mulher é que é condenada por adultério.
Embora o Paquistão tenha assinado em 1996 a CEDAW (Convenção sobre a Eliminação da Discriminação contra a Mulher), o governo manteve reservas quanto aos pontos em conflito com a sharia. Em outras palavras, manteve a discriminação contra as mulheres tal como ela é prevista na lei islâmica.
Num contexto como esse, uma ativista como Asma Jahangir está evidentemente em situação bastante desconfortável. Mesmo nunca tendo renunciado à sua fé, Jahangir é um alvo do extremismo islâmico local que a vê como uma apóstata. Sua batalha contra a lei da blasfêmia, ao lado do governador do Punjab, Salman Taseer, certamente não melhorou estas condições.
Justamente por causa do assassinato de Taseer, em janeiro de 2011, Jahangir aproveitou a oportunidade para lançar um premente apelo e para acusar o governo do Paquistão de conivência com os extremistas islâmicos. “Não só mataram Salman Taseer, como ainda por cima foram justificar o assassinato na televisão”.
O próprio ministro paquistanês do Interior afirmou que, se alguém blasfemasse em sua presença, ele mesmo o mataria. Mas Salman Taseer nunca disse nada de blasfemo. Ele simplesmente afirmou que a lei devia ser revista.
Esta é uma acusação muito específica contra um governo que não consegue se distanciar do radicalismo islâmico, que não tem a coragem de transportar o país para a modernidade.
Diante fatos assim, não é nenhuma coincidência que a mais recente ameaça contra Jahangir tenha vindo dos serviços de inteligência paquistaneses, que sempre mantiveram uma relação no mínimo ambígua com os ambientes islâmicos mais radicais. Enquanto os extremistas islâmicos a difamam como apóstata, a imprensa pró-governo a acusa de ser uma traidora filo-indiana.
É óbvio que a vida da corajosa advogada corre grave perigo. O apelo para sensibilizar a opinião pública e as instituições internacionais é, portanto, essencial, a fim de que o governo paquistanês não seja apenas obrigado a prestar contas de qualquer ação violenta contra Jahangir, mas também se comprometa com um processo de reforma interna, começando pelo sistema educativo das madrassas, objetivando melhorar o status da mulher em particular e das minorias em geral.
Se o mundo quer que vozes como a de Asma Jahangir continuem denunciando as violações dos direitos humanos, precisa se lembrar todos os dias de que estas vozes só irão sobreviver se forem conhecidas e protegidas internacionalmente.
*Valentina Colombo (Cameri, Novara, 1964) é professora de Cultura e Geopolítica do Islã na Universidade Européia de Roma e membro sênior da Fundação Européia para a Democracia (Bruxelas). É presidente da "Vencer o medo" para a liberdade religiosa e a liberdade de expressão. Escreveu vários artigos e textos sobre o mundo árabe-islâmico e é o tradutora do Prêmio Nobel de Literatura, Naguib Mahfouz e de muitos outros autores árabes, clássicos (Jahiz e Hamadhani) e contemporâneos (Bayyati, Qabbani, Adonis). Sua pesquisa se concentra especialmente nos intelectuais liberais árabes e o papel das mulheres nos processos de democratização no Oriente Médio.
(Tradução:ZENIT)

http://www.avaaz.org/en/petition/Protect_Pakistans_leading_human_rights_activist_Asma_Jahangir_from_state_agency_plots_to_assassinate_her/?launch